Nossa Senhora Aparecida vira alvo de disputa nas eleições 2026
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/8/p/CI7XJsThKRX7QfLQMGCg/texto-do-seu-paragrafo-2026-10-09t124547.685.png)
Na última semana da campanha para o 1º turno das eleições de 2026, Nossa Senhora Aparecida foi alçada ao centro do debate político nacional. A circulação de publicações que atribuíram a Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de retirar da Santa o título de Padroeira do Brasil, informação negada pelo candidato, provocou reações de adversários, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Justiça. A discussão em torno de Nossa Senhora, cuja imagem fica no maior templo católico do país, no interior de São Paulo, mostra a força de um dos maiores símbolos da fé dos brasileiros. Por isso, a Basílica em Aparecida se consolidou, além de destino de milhões de romeiros todos os anos, como uma parada das campanhas presidenciais e 'palco' onde políticos acenam aos eleitores católicos. 🔎A polêmica sobre a Padroeira começou nos últimos dias após postagens associarem a Flávio Bolsonaro um projeto para tirar da Santa o título de Padroeira do Brasil. Apoiadores de Lula (PT) passaram a explorar os posts politicamente e a disputa foi levada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que liberou publicações na web sobre o tema, desde que não associem o projeto ao candidato do PL. Além de os políticos visitarem e participarem de missas no templo, principalmente em datas festivas, a CNBB também participou ativamente do processo eleitoral, sobretudo nas eleições de 2014 e 2018, em que promoveu debate próprio entre os presidenciáveis. O debate em 2022 chegou a ser agendado, mas foi cancelado devido às ausências de Lula e Bolsonaro. O local escolhido para receber os postulantes à presidência, nas duas ocasiões em que o evento ocorreu em Aparecida, foi o centro de eventos da Basílica. A transmissão ocorreu para todo o país por meio de emissoras católicas, entre as quais a TV Aparecida, ligada ao Santuário, e a TV Canção Nova. 📿A CNBB é o órgão máximo da Igreja Católica no Brasil. A entidade reúne os bispos e orienta a atuação do catolicismo no Brasil. Já na campanha de 2026, somente o então candidato Renan Santos (Missão) esteve no local, dia 22 de setembro. Lula e Flávio, que estão agora no 2º turno, não confirmaram ainda se estarão no Santuário Nacional no dia 12 de outubro, dia dedicado à Padroeira. Ambos nunca estiveram em agenda pública no templo este ano. Lula se declara católico. Flávio, que se declara evangélico, ergueu uma imagem da Santa em ato de campanha em São Paulo, acompanhado do governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no dia 28 de setembro. Outras figuras centrais da eleição 2026, como Geraldo Alckmin (PSB), vice de Lula, e Gilberto Kassab, presidente do PSD e então vice de Ronaldo Caiado (PSD), são figuras frequentes em cerimônias na Basílica. Para a antropóloga da religião Brenda Carranza, professora da Unicamp e pesquisadora visitante da Faperj-UERJ, o uso de símbolos religiosos em campanhas não é novo, mas ganhou força em um momento de disputa acirrada. Para a especialista, a polêmica também expõe a mudança na relação de forças entre católicos e evangélicos na política brasileira. “A Nossa Senhora, reativada como polêmica, simplesmente traz um resquício e revela este ambiente polarizado mais profundo. Se fosse um ambiente normal dos anos 90, isto não teria tomado a proporção que tomou.” Para o cientista político e sociólogo José Maurício Cardoso, da Universidade de Taubaté (Unitau), a religião continua sendo um importante ingrediente da política brasileira e a presença cada vez maior da religião nas campanhas também revela uma dificuldade da sociedade em separar as dimensões religiosa e política. Apesar da queda registrada nas últimas décadas, o catolicismo continua sendo a maior religião do Brasil. Segundo o Censo IBGE 2022, 56,7% da população brasileira se declarou católica. O percentual, no entanto, é o menor já registrado desde 1872, quando os católicos representavam 99,7% da população. Ao mesmo tempo que a população que se declara católica caiu, a de evangélicos subiu. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 26,9% da população brasileira se declarou evangélica, ante 21,6% em 2010. O grupo passou a representar mais de um quarto da população, enquanto a proporção de católicos caiu de 65,1% para 56,7% no mesmo período. Na pesquisa Quaest divulgada em 3 de outubro, última antes do 1º turno, o presidente aparecia à frente na preferência dos católicos, com 44%. O candidato do PL tinha 36%. Flávio tem vantagem entre os evangélicos, com 50%, contra 28% de Lula. A presença de políticos de todas as esferas do poder não é novidade na Basílica. A torre do relógio, uma das partes mais imponentes da construção, com 100 metros de altura, foi presente do então presidente Juscelino Kubitscheck, em 1961. Ele fez a doação, à época, a pedido de um arcebispo. O ex-presidente Jair Bolsonaro esteve nos últimos oito anos ao menos três vezes no Santuário Nacional. Ele, em novembro de 2018, como presidente eleito, visitou a igreja após uma formatura de sargentos em Guaratinguetá. Também esteve no templo no dia da Padroeira em 2021 e em 2022. Alckmin, vice de Lula, e Kassab, vice de Caiado, são figuras frequentes nas celebrações do Santuário Nacional. Alckmin, vice-presidente e vice na chapa de Lula à reeleição, estará novamente, nesta segunda (12), no templo. Flávio tem agenda em São José dos Campos, cidade distante 84 km da basílica e rota de peregrinos pela rodovia Dutra. Em 2018, nomes como Ciro Gomes (PSDB) e Fernando Haddad (PT), então candidatos à presidência, visitaram o local. Em 2010 foi a vez de José Serra (PSDB) e da candidata, depois eleita, Dilma Roussef (PT) estarem na basílica. Para o cientista político José Maurício Cardoso, a presença de candidatos em igrejas, santuários e romarias tem significado eleitoral. “Uma vez que uma pessoa se envolva com determinados segmentos religiosos, grupos religiosos, como faz as romarias, aos templos e às basílicas, isso tem, de maneira bastante objetiva, uma mensagem. A mensagem é de que essa pessoa compartilha os mesmos valores, os mesmos sentimentos, talvez os mesmos objetivos.” José Maurício Cardoso também acredita que o episódio como fenômeno eleitoral é explicado pela força que a Santa tem na religiosidade popular brasileira. “Quando se mexe com Nossa Senhora, atinge-se a essência, o âmago da fé do brasileiro", avaliou. A relação entre religião e política também aparece, segundo ele, em temas como aborto, família, tradições e costumes. São pautas que conseguem mobilizar eleitores principalmente quando são apresentadas de 'maneira emocional'. “Por exemplo, o aborto. Racionalmente, o Estado brasileiro, que é um Estado democrático, categoriza e legaliza três situações de aborto. Isso não significa, de maneira nenhuma, que você vai, de repente, criar uma política pública em qualquer condição pro aborto ser possível. Só que, como eu disse para você, essas pessoas, muitas vezes, se apropriam dessas linguagens, dessas representações, desses símbolos e instrumentalizam isso”, disse. Para o cientista político e ex-professor da Universidade de Brasília (UNB), Cristiano Noronha, a religião continua sendo uma importante referência de identidade e pertencimento no Brasil e, por isso, tem peso nas campanhas eleitorais. Segundo ele, símbolos como Nossa Senhora Aparecida ultrapassam a dimensão religiosa e passam a representar também uma identidade nacional. “Politicamente, mexer com esses símbolos religiosos significa tocar também numa questão muito sensível para uma parte bastante expressiva da população.” Para ele, a polêmica ganhou força pela combinação entre um símbolo sensível, redes sociais, polarização política e a proximidade da votação. “Esses são os fatores que fazem essa polêmica ganhar tanta repercussão nacionalmente", concluiu.


