Raio-X dos tornados no Brasil: com mais de 500 registros, fenômeno é mais frequente e mais intenso no Sul
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/t/p/Cd59M5SzSOg7lAUFabLA/966fe737-2982-44ca-97a5-88198c3f435b.png)
O Brasil esteve sob alerta de tornado nesta semana. No Paraná, foram dois episódios da categoria mais intensa em menos de 24 horas, que deixaram um rastro de estragos em cidades do estado. Dados a que o g1 teve acesso com exclusividade mostram que nos últimos nove anos o país teve 524 registros de tornados e a maior parte deles no Sul do país. O Brasil não tem um banco de dados oficial dedicado a rastrear essas ocorrências. Os números usados nesta reportagem são do Prevots, projeto mantido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade de Oklahoma, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), que monitoram tempestades e tornados no país. 🌪️ De acordo com os dados, que reúnem os registros de julho de 2018 a agosto de 2026, 43% de todos os tornados no Brasil aconteceram entre os estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em 2026, o país registrou 86 tornados até agosto, número que corresponde a 58% do total de 148 ocorrências registradas ao longo de todo o ano de 2025. 🌪️ TORNADO é uma coluna de vento que gira muito rápido e liga uma nuvem de tempestade ao chão, como um funil. Ele só se forma quando algumas condições do tempo se encontram ao mesmo tempo — e é justamente essa combinação que é mais comum no Sul do Brasil do que no resto do país. No ano passado, Rio Bonito do Iguaçu (PR) foi atingida por um tornado devastador de categoria F4 – uma das mais altas na escala. A cidade foi devastada e seis pessoas morreram. Ernani Nascimento, doutor em Meteorologia pela Universidade de Oklahoma (EUA) e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde estuda tornados e tempestades severas, explica que é no Sul que o ar quente e úmido vindo da Amazônia se encontra com o ar frio e seco vindo da Argentina, intensificando o vento em altura — fenômeno chamado de cisalhamento. Essa combinação de elementos ocorre de uma maneira frequente no Sul do Brasil. É um padrão muito parecido com o que a gente observa nos Estados Unidos também — é por isso que lá também tem os tornados. Dos 524 tornados registrados no Brasil desde junho de 2018, 227 aconteceram em apenas três estados: Rio Grande do Sul (93), Paraná (81) e Santa Catarina (53). Enquanto no Brasil como um todo a maioria dos fenômenos registrados é do tipo menos intenso, no Sul essa lógica se inverte: mais da metade dos casos identificados na região é do tipo gerado por supercélula, a categoria de maior potencial destrutivo - 51% dos casos. 🌪️ Supercélula é uma tempestade que gira inteira, como um redemoinho gigante de nuvem. Quando essa rotação desce em direção ao solo e se afunila, nasce o tornado — e por já sair de uma tempestade que gira, ele tende a ser mais forte e durar mais que os outros tipos. E você pode se perguntar: por que isso acontece com mais frequência no Sul? Por trás dessa concentração está a posição geográfica da região e o que ocorre por lá. Tudo começa com os rios voadores – que são jatos de ventos que carregam calor e umidade direto da Amazônia até o Sul do país. Se você imaginar esse jato como um rio, é como se esse rio, que está trazendo ar quente e úmido, desembocasse no Sul do Brasil. E, ao fazer isso, é como se começasse a empoçar a umidade naquela região do mapa”, explica Ernani. ➡️ É nesse ponto que entra o segundo ingrediente: vindo da Argentina, chega ar frio e seco. O encontro das duas massas cria um contraste que acelera o vento conforme a altitude aumenta — o que os especialistas chamam de cisalhamento. Com ele, a rotação começa lá em cima e, em alguns casos, desce até perto do chão. É esse último passo que separa uma tempestade comum de um tornado. São Paulo aparece logo atrás do Rio Grande do Sul no ranking nacional, com 90 registros no período — apenas três a menos que o estado gaúcho, o mais afetado do país. O pesquisador e especialista em tornados explica que isso ocorre porque essa junção de fatores que se encontra no Sul do país também afeta o Centro-Sul, como São Paulo e o Mato Grosso do Sul, mas com menor frequência. Sarandi e Guaíba, no Rio Grande do Sul, e Dourados, no Mato Grosso do Sul, lideram o ranking de cidades mais atingidas por tornados desde 2018, com nove ocorrências cada uma. (Lista de cidades omitida). Os pesquisadores, estudiosos da meteorologia e especialistas em tempestades, têm uma rede de buscas por relatos de pessoas nas redes sociais e notícias de possíveis tornados, anotando local e horário aproximados de cada ocorrência. A partir daí, checam essas informações com imagens de satélite ambiental — as mesmas usadas para detectar queimadas —, que revelam o rastro de dano que o tornado deixa na vegetação, como uma cicatriz vista do espaço, ajudando a confirmar a extensão do fenômeno e, em alguns casos, sua intensidade. Com base nisso, eles confirmam o registro do tornado na plataforma como oficial.


