Samuel Lino, o protagonista no Flamengo de Leonardo Jardim

Dois gols, com mais uma atuação de protagonista. Samuel Lino viveu contra o Botafogo uma das noites que melhor representam a sua transformação no Flamengo de Leonardo Jardim. Na vitória por 3 a 0, o camisa 16 participou dos três gols e foi o grande nome do clássico. O desempenho também reforçou uma evolução que ganhou força principalmente após a Copa do Mundo: deixou de ser apenas um jogador de velocidade e drible pela ponta para assumir cada vez mais responsabilidades na construção, na criação e na finalização das jogadas. Os números do clássico mostram a dimensão da atuação. Foram dois gols, três passes decisivos, 37 passes certos em 41 tentativas (90% de aproveitamento), seis duelos ganhos e quatro desarmes. Um desempenho contra o adversário que se tornou a sua maior vítima desde que voltou ao Flamengo, clube em que foi formado e que, num passado recente, foi chamado de "peladeiro". A evolução de Lino passa pela forma como ele participa do jogo. O atacante continua tendo a velocidade e a capacidade de explosão como características importantes, mas passou a aparecer com mais frequência em zonas diferentes do campo. A aproximação dos companheiros, a participação na construção e a chegada à área ampliaram seu repertório. O resultado aparece nos números do Campeonato Brasileiro. Em 24 partidas, 19 como titular, Samuel Lino marcou oito gols e deu sete assistências, chegando a 15 participações diretas. São, em média, 102 minutos para participar de um gol. Também são 11 grandes chances criadas e 36 passes decisivos. A capacidade de criação chama atenção porque mostra que sua influência não depende apenas de finalizar as jogadas. Lino também consegue construir para os companheiros. Se os números gerais já são expressivos, o desempenho nos clássicos do Brasileirão mostra uma concentração ainda maior de protagonismo. São quatro jogos, três gols e duas assistências, totalizando cinco participações em gols. O clássico de domingo também ampliou uma curiosa lista. O Botafogo passou a ser o adversário contra quem Samuel Lino mais marcou desde que retornou ao Flamengo, com três gols. Coritiba e Vitória vêm logo atrás, com dois. A transformação ganha peso quando se olha para o caminho percorrido por Samuel Lino. Antes de retornar ao Flamengo como a contratação mais cara da história do clube (ultrapassada, depois, por Paquetá), ele já conhecia a camisa rubro-negra. O atacante passou pela base, participou da conquista da Copinha de 2018, mas teve dificuldades de adaptação e deixou o clube ainda jovem. A saída abriu espaço para uma carreira construída longe do Rio. No Gil Vicente, em Portugal, teve seu primeiro grande salto. Depois, chegou ao Atlético de Madrid e se consolidou no futebol europeu. O retorno ao Flamengo aconteceu em outro patamar. O clube investiu 22 milhões de euros, cerca de R$ 143 milhões, para contratá-lo, colocando sobre o jogador uma cobrança proporcional ao tamanho da operação. O início foi positivo, tendo o seu nome, inclusive, ligado à Seleção Brasileira. Mas a sequência trouxe oscilações. As críticas aumentaram e, em outubro de 2025, o muro da sede do Flamengo, na Gávea, foi pichado com a frase "$ Lino peladeiro", em referência ao valor da contratação e à insatisfação com o rendimento apresentado naquele momento. O cenário mudou. A temporada de 2026 ainda teve oscilações, mas o período após a Copa do Mundo marcou uma evolução importante. Samuel Lino passou a participar mais do jogo e a encontrar diferentes formas de influenciar as partidas. A velocidade continua sendo uma arma, mas deixou de ser sua única ferramenta. Hoje, o atacante cria, passa, finaliza, disputa duelos e também contribui defensivamente. E isso passa diretamente pelo trabalho com o técnico Leonardo Jardim. Os números do clássico contra o Botafogo traduzem isso de maneira quase perfeita: dois gols, três passes decisivos, 90% de acerto nos passes, seis duelos ganhos e quatro desarmes. Após o clássico, o treinador português, em resposta ao Lance!, brincou sobre o momento do atacante. Eu estava brincando com ele (Samuel Lino) agora no vestiário sobre isso. Essa grande temporada que ele está fazendo não se deve ao treinador. O treinador só está aqui para não atrapalhar (risos). Não atrapalhar, às vezes, já é bom. Deve, principalmente, às capacidades que ele tem desenvolvido, nos jogos e no trabalho diário — disse Jardim, técnico do Flamengo, sobre Samuel Lino. A produção ofensiva também sustenta a percepção de crescimento. Com oito gols e sete assistências no Brasileirão, Lino participa diretamente de 15 gols em 24 partidas. E ainda há um dado que ajuda a dimensionar sua eficiência: 56% de conversão das grandes chances. A evolução, portanto, não está apenas na percepção de quem acompanha o Flamengo. Ela aparece na produção. Existe uma ironia na trajetória recente de Lino. O jogador que chegou ao Flamengo cercado por expectativa por causa do maior investimento da história do clube também passou pelo período de maior cobrança. Foi chamado de "peladeiro" em uma pichação na Gávea e precisou conviver com questionamentos sobre seu rendimento. Agora, vive uma realidade diferente. A evolução com Leonardo Jardim transformou Lino em uma das principais peças ofensivas da equipe. O atacante não depende mais exclusivamente do drible ou da velocidade para aparecer. Tornou-se um jogador mais participativo, capaz de criar para os companheiros e chegar à área para decidir. O atacante que um dia saiu do Flamengo sem espaço, voltou como a contratação mais cara da história e passou por críticas pesadas, agora encontrou, com Jardim, uma forma diferente de ser protagonista. A imagem dele cantando "Dezembro de 81" ao lado da torcida antes do jogo contra o Cruzeiro também ajuda a contar essa história. Naquela noite, marcou um gol e foi decisivo na classificação. Contra o Botafogo, repetiu o protagonismo em uma escala ainda maior.


